A música nos sete povos das missões

Sete Povos das Missões
As reduções jesuíticas, também chamadas povos, doutrinas ou missões, eram povoados em que os padres da Companhia de Jesus (ou jesuítas) reuniam indígenas com o objetivo de convertê-los à religião católica e formar comunidades autossustentáveis.

Primeiras missões
A partir de 1588, jesuítas espanhóis estabeleceram as primeiras reduções indígenas no local em que hoje é a província paraguaia de Guairá. Em 1611, as aldeias sofreram um grande ataque de bandeirantes paulistas, que capturavam índios guaranis para vendê-los como escravos. Os ataques se repetiram, obrigando os padres a abandonar as reduções de Guairá.

Em 11 de março de 1641, agora usando armas de fogo, os guaranis impuseram grande derrota aos bandeirantes na batalha do M’Bororé (rio localizado na atual província argentina de Misiones). Livres dos “caçadores de índios”, os jesuítas expandiram as missões para a margem leste do rio Uruguai, onde hoje fica o estado do Rio Grande do Sul, no Brasil.

Os Sete Povos
As missões fundadas em território hoje pertencente ao Brasil fazem parte da última onda evangelizadora dos jesuítas na América do Sul. A primeira, São Luís de Borja, data de 1687. Vieram depois São Luís Gonzaga, São Nicolau, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista e Santo Ângelo Custódio, a última, que é de 1707. Na época de maior prosperidade, cada uma dessas aldeias reunia, no mínimo, 2 mil habitantes. Muitas delas deram origem a cidades do Rio Grande do Sul.

A música nos sete povos das missões
Os temas das óperas das missões jesuíticas seguiam o objetivo da catequização: eram temas religiosos (bíblicos ou não) ou históricos (relacionados à religião). No período dos Sete Povos, acompanhava-se o estilo em uso na Europa, que era o Barroco. Alguns escritos da época, referentes ao assunto, usavam a expressão “em estilo de ópera italiana”.

Todas as óperas, com exceção de uma, perderam-se ou pela destruição efetuada pela guerra guaranítica ou posteriormente. A única que sobrou foi encontrada na Bolívia e tem duração de pouco mais de meia hora.

Bernardo Illari fez a análise dessa ópera, denominada de San Ignacio. Alguns compositores participaram dela, inclusive indígenas, além de Domenico Zipoli e Martin Schmid. Em São Borja, em 1760, durante a intervenção do exército espanhol, comandado por Dom Pedro Cevallos, organizaram-se festejos para a coroação de Carlos III. Além de outras modalidades, apresentaram, na ocasião quatro óperas. Todas seguiam o objetivo catequético e de homenagens.

O perfil dos compositores e intérpretes
As óperas eram cantadas e representadas dentro das igrejas. Não havia teatro. Devido à aculturação, nenhum indício restava da música anterior. Os maiores responsáveis dessa aculturação foram os próprios índios e não as imposições dos padres. Encantados com a cultura europeia, descartaram a sua própria. Aliás, isso é fenômeno constante em todas as civilizações e em todas as épocas. Os índios tinham mais inclinação natural para registros altos de voz. Raros eram os de registro baixo. Eles aprendiam com extraordinária facilidade e rapidez.

Os antigos instrumentos indígenas foram praticamente descartados. Eram construídos instrumentos europeus (cordas e sopros), sob a orientação dos padres e irmãos jesuítas. Tão bons que até eram exportados para Europa.

O período missioneiro divide-se em duas etapas. A primeira, abrangendo as décadas iniciais do século XVII, sofreu a pilhagem e a perseguição dos paulistas; porque Portugal pertencia à Espanha e, como tal, a toda a América do Sul. Após a separação de Portugal, e os paulistas sendo derrotados pelos índios missioneiros, a catequização entrou em nova e próspera fase: a dos Trinta Povos das Missões. Sete deles eram localizados no atual território do Rio Grande do Sul. A nova situação deu um extraordinário impulso para a educação musical missioneira, que durou mais de cem anos. As óperas eram pensadas tanto para os missioneiros quanto para os espanhóis que se relacionavam com eles.

Não existia Brasil, somente Espanha ou Portugal. Devido ao Tratado de Madri (1750), a maior parte do Rio Grande do Sul, que era da Espanha, passou ao domínio português enquanto a maior parte do atual Uruguai passou para o domínio espanhol. Dessa forma, torna-se difícil criar uma imagem precisa e duradoura.

Essas óperas tinham como conteúdo fundamental imagens bíblicas, preceitos religiosos ou personagens históricas e católicas. Além disso, eram constantes as referências sobre tentação, demônio, pecado e ética. Raros eram os conteúdos políticos.

Nos Sete Povos das Missões, houve um jesuíta muito especial: o austríaco Padre Sepp, fundador da missão de São João Batista. Reformulou e modernizou, para a época, a música nas missões, em geral, e nos Sete Povos, em particular. Trouxe a nova escrita musical e os novos estilos, principalmente o Barroco mais moderno, que era o austríaco. Ensinou partituras de novos compositores europeus (como Schmelzer e Biber) ainda não conhecidos pela Península Ibérica. O processo de educação era incrível! Grande parte do horário era reservada para a música. Cada povo missioneiro tinha orquestra e coros, que faziam intercâmbio entre os povos, principalmente nas datas festivas.

Os jesuítas apostavam em dedicar tanto tempo da educação com a música pois é a primeira na ordem ontológica das artes. Alguém pode viver sem a pintura, a escultura, a arquitetura, a literatura… Jamais sem a música. Isso ocorre historicamente em todos os povos. Através da música, facilita-se o contexto educacional, e o indivíduo se realiza na percepção de si mesmo.

FONTES DE REFERÊNCIA:

Instituto Humanitas Unisinos, Revista 196, Ano VI
Britannica Escola
Páginas acessadas em 02/09/2015
Adaptações dos textos: Elza Costa

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